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Professor do IFMG pesquisa como crianças enxergam a engenharia e aponta desafios de gênero na área

Estudo revela visões estereotipadas sobre a profissão desde o ensino fundamental e propõe ações pedagógicas para ampliar o interesse pela engenharia.
publicado: 25/04/2026 14h08, última modificação: 25/04/2026 14h08

Como as crianças imaginam um engenheiro? A resposta para essa pergunta tem revelado muito mais do que simples desenhos. Uma pesquisa desenvolvida pelo professor do IFMG, Jefferson Silva, identificou que estudantes do ensino básico, em diferentes países, associam a engenharia principalmente ao trabalho manual e, majoritariamente, à figura masculina. Os resultados acendem um alerta sobre como estereótipos construídos desde a infância podem impactar o interesse e o acesso às carreiras de engenharia.

O estudo integra uma série de publicações internacionais na área de Educação STEAM (abordagem interdisciplinar que articula Ciências, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática) e teve como estratégia a análise de desenhos produzidos por crianças a partir da proposta “Desenhe uma pessoa engenheira”. A partir desses registros, foi possível investigar as concepções dos estudantes sobre a profissão, suas conexões com Matemática e Ciências e as representações de gênero envolvidas.

Em um dos artigos, intitulado Systematic Review About Students’ Conceptions of Engineering Accessed Through Drawings: Implications to STEAM Education, publicado na revista International Journal of Cognitive Research in Science, Engineering and Education (IJCRSEE), o pesquisador realizou uma revisão sistemática de estudos conduzidos em vários países. Os resultados indicam que as crianças, em geral, percebem a engenharia como uma atividade predominantemente manual, sem reconhecer claramente o uso de conhecimentos científicos e matemáticos. Também se destaca a desigualdade de gênero: a maioria dos desenhos representa engenheiros como homens.

Pesquisa semelhante foi desenvolvida em uma escola espanhola e publicada na revista Enseñanza de las Ciencias, uma das mais conceituadas da Espanha na área de Educação. O artigo “Concepciones del alumnado sobre ingeniería y sus conexiones con las matemáticas y las ciencias”, apresentou resultado semelhante ao observado em outros países.

Imaginário social e desigualdade de gênero

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Jefferson e a pesquisadora Marcela Hormazábal

De acordo com o professor, a motivação inicial da pesquisa surgiu durante seu doutorado em Educação na Espanha, quando se dedicou à Educação STEAM, com foco especial na dimensão da engenharia. A discussão sobre equidade de gênero ganhou força a partir dos resultados empíricos e, especialmente, da parceria com a pesquisadora chilena, Marcela Hormazábal, que investigava a temática de forma central.

“O ingresso reduzido de alunas em cursos de engenharia não é apenas fruto de escolhas individuais. É resultado de um processo que começa na infância e se cristaliza no imaginário social de que engenharia é trabalho manual e para homens”, destaca.

Para ele, compreender como estudantes do ensino fundamental enxergam a engenharia é fundamental para pensar políticas de acesso, permanência e êxito nos cursos da área. “O ingresso reduzido de alunas em cursos de engenharia não é apenas fruto de escolhas individuais. É resultado de um processo que começa na infância e se cristaliza no imaginário social de que engenharia é trabalho manual e para homens”, destaca.

Um momento marcante da pesquisa, segundo Silva, ocorreu durante uma atividade de Estatística com alunos entre 10 e 12 anos. “Após desenharem pessoas engenheiras, os próprios estudantes analisaram quantitativamente as produções da turma. Ao constatarem que o número de figuras masculinas era muito superior ao de femininas, levantaram hipóteses, organizaram a contagem de desenhos por grupos e aprofundaram a análise. A discussão evoluiu para um debate sobre gênero na engenharia, surpreendendo pela maturidade e pela robustez da análise estatística realizada pelas crianças”, conclui.

Além de evidenciar o problema, a pesquisa também aponta caminhos. No artigo Conectando matemáticas e ingeniería a través de la estadística: una actividad STEAM en educación primaria, publicado na Revista Electrónica de Conocimientos, Saberes y Prácticas, o professor, juntamente com outros pesquisadores, propõe atividades pedagógicas no contexto STEAM, como o uso da estatística para que os próprios alunos reflitam sobre as representações produzidas. A proposta é que a escola atue de forma consciente para desconstruir estereótipos que podem ser reforçados por livros infantis, familiares e até mesmo por educadores, muitas vezes de maneira involuntária.

Pesquisa aplicada no IFMG

No IFMG, o instrumento de pesquisa foi aplicado a professores da rede municipal de Arcos durante uma formação realizada no campus do município. De acordo com Jefferson, os próprios docentes reconheceram a presença de concepções estereotipadas e a necessidade de repensar práticas pedagógicas. A atividade também é aplicada a ingressantes do curso de Engenharia Mecânica do campus Arcos, promovendo reflexão logo no início da formação acadêmica.

Discussão desde a infância

Para o pesquisador, trabalhar engenharia na perspectiva STEAM desde as séries iniciais é estratégico. A área desenvolve habilidades como observação analítica, reconhecimento de padrões, compreensão de geometria e elaboração de estratégias para produtos e processos. Mais do que isso, pode funcionar como elemento integrador, dando sentido prático a conhecimentos de Matemática e Ciências.

Ao revelar como a imagem da engenharia é construída ainda na infância, a pesquisa contribui diretamente para o debate sobre formação de novos profissionais e para o fortalecimento de estratégias institucionais que ampliem o interesse de crianças e adolescentes (especialmente meninas) pelos cursos de engenharia ofertados pelo IFMG.

Sobre o pesquisador

Jefferson Silva defendeu o doutorado em 2023, sob a orientação do Pesquisador Àngel Alsina, recebendo o reconhecimento Cum Laude, concedido por votação unânime e secreta da banca examinadora. Posteriormente, foi agraciado com o Prêmio Extraordinário de Melhor Tese de Doutorado na área de Educação da Universidade de Girona, reconhecimento atribuído a trabalhos de destaque quanto ao impacto acadêmico e à produção científica.

A tese “Revisiting STEAM in the interplay between extrinsic and intrinsic goals of education: Implications for teaching and teacher training”, resultou na publicação de mais de 20 artigos científicos, incluindo estudos desenvolvidos em parceria com pós-graduandos do IFMG. Parte das publicações contou com financiamento do Edital da Arinter, além de apoio institucional durante o período de afastamento para capacitação.

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Jefferson e seu orientador de doutorado, Àngel Alsina

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